Jornalismo Universitário

Este Bliog trata dos tropeços de uma jovem estudante de Jornalismo, a procura de conhecimentos acerca de sua futura profissão.

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21.04.07

Arte que se Compra

Relação entre o público e obra de arte hoje está restrita ao simples consumo

Qual é a importância de uma obra de arte ser única? Em seu texto mais conhecido, “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”, o filósofo Walter Benjamin discute essa questão. Membro da Escola de
Frankfurt, movimento do início do século XX que pensa o caminho trilhado pela sociedade do espetáculo, Benjamin acredita que a unicidade da obra é característica de uma produção não-industrial. A
intervenção do homem produz obras de arte únicas, impossíveis de se reproduzir e, por isso, dotadas de aura. Por exemplo, um músico em uma orquestra. Seu espetáculo é singular e acessível apenas a quem
assiste ao concerto. A impossibilidade de reprodução é
o que caracteriza a aura de sua música.

As técnicas de reprodução mudaram o relacionamento das pessoas com as obras. Criadas pelo desenvolvimento capitalista do século XX, essas técnicas não foram responsáveis apenas por reproduzir cópias de antigas obras, mas criaram formas de arte que não existiriam sem a indústria, como o cinema e a fotografia. Isso altera toda a relação do artista com seu trabalho, e da obra com o público.

Apesar da aceitação desse conceito, a delimitação dada à aura por Benjamin não é um consenso entre os pesquisadores. “Apesar da importância teórica, o conceito de aura não tem uma aplicação prática muito boa. Isso porque mesmo a obra única permite várias interpretações, que maleabilizam sua aura”, explica Euclides Guimarães, sociólogo e professor de Teorias Sociais Contemporâneas da Puc Minas e de História da Arte da FEA. Mas ele localiza o contexto empregado pelo filósofo para tratar da perda dessa aura. “Há em Benjamin uma preocupação em mostrar como as técnicas de eprodução alteraram sua unicidade, e a relação das pessoas com essa obra de arte”, completa.

Ainda assim, Euclides acredita que as críticas feitas à Escola de Frankfurt não derrubam seus aspectos fundamentais. “Ela mostra como aparece um novo homem do ponto de vista ideológico, regido pela sedução e relacionado com a publicidade. Isso nos permite entender porque nosso tempo é o tempo das imagens e dos simulacros”, define.

Douglas Garcia, professor de filosofia da FCH, prefere usar o termo singularidade para pensar em aura. “Aura é um termo muito carregado, que remete a uma separação, a um culto quase mágico do objeto. Não
deve haver esse distanciamento entre obra e público”, analisa. Para ele, a singularidade está presente, mesmo com a reprodução. “Uma obra é um indivíduo, e mesmo com a reprodução pode haver unicidade. Basta não ficar preso ao domínio técnico e à simples reprodução de um conceito dominante”, conclui. A Sociedade de consumo .

A criação artística hoje é deturpada, em muitos aspectos, pela relação que a obra de arte estabelece com o consumo. Para se ter acesso a um bem cultural é necessário seguir uma relação com o mercado, que
obedece a leis próprias de circulação da mercadoria, divergentes dos ideais artísticos pretendidos. O apelo mercadológico necessário para sua venda descaracteriza o objeto – moldado não segundo padrões artísticos, mas de mercado - e cria uma confusão no público.

A professora de História da Arte da FCH, Zahira Souki,ressalta a dependência da arte às leis de mercado. “A partir do início do século XIX, a arte, que era tradicionalmente objeto de culto, passa a ser objeto
de troca. Com isso, é inserida de todas as maneiras às leis que regem uma sociedade de consumo”, define.

Douglas ressalta essa confusão. “O acesso à arte hoje é maior, mas a relação estabelecida é problemática. Há uma confusão entre autonomia estética e consumo. As pessoas buscam na arte um conforto, a boa forma, a distinção por status, contrários ao estranhamento e à busca pela diferenciação que devem acompanhar a arte”, admite.

Museus ganham novo significado

Há algumas décadas, uma das únicas formas de contato  com arte seria em uma visita a um museu.  Raras eram as publicações do gênero, e mesmo a televisão era um meio restrito para se abordar o tema. Hoje, canais especializados bombardeiam o público de informações, e
a internet se tornou um canal importante de divulgação das artes. Mas o acesso significa apenas uma convivência maior, ou uma consciência da relação entre arte e sociedade?

Para o crítico e artista plástico Márcio Sampaio, é inegável a maior divulgação de informações sobre arte, mas há também uma deficiência na relação com as obras.

“O acontecimento artístico está longe do cotidiano das pessoas. Temos uma carência de grandes museus, e, além disso, não é estimulado o interesse pelo contato com as obras”, lamenta. O maior problema? “A arte é um instrumento para desenvolver a consciência crítica. É uma forma de tocar as pessoas, fazê-las refletir. Não pode deixá-las cair no simples apelo do consumo”, admite. Para Márcio, sem a vivência da arte, as pessoas ficam de mãos vazias, sem perspectivas. Márcio Sampaio destaca ainda a agressividade na mudança da atenção dedicada às obras. “O apelo é da adrenalina, do barulho, há a necessidade do
espetáculo. A delicadeza e o traço leve perdem seu espaço. Os grandes painéis tomam o lugar da suavidade, são agressivos. No cinema dos Westerns, um tiro simbolizava uma disputa. No de hoje, só ataques em
massa, explosões”, compara.

Os museus tomaram novo significado na relação do público com a arte. Se em outros tempos eram praticamente os únicos lugares disponíveis para o acesso do público à arte, hoje sua configuração é outra, dado a exposição das manifestações artísticas na mídia. É o que destaca Euclides Guimarães. “Com a exposição das reproduções nos meios de comunicação, os museus ganham uma aura própria, por serem os únicos lugares em que as obras podem ser vistas. Há o ritual da visita a uma grande exposição”, destaca.

Museus ganham novo significado

Manuel Carvalho Gomes, artista plástico, crítico e professor de Teoria da Cor e Desenho de Observação,da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), começou a pintar há nove anos. Em suas exposições, percebe pelas reações do público como a arte desperta a observação e a curiosidade. “As pessoas buscam nos quadros uma indagação intelectual, algo que lhes faça sentido pelo pensamento. Eu observo o fascínio que as imagens exercem”, admite. Para Carvalho Gomes, a obra de arte ainda possui sua aura, mesmo com todas as técnicas de reprodução existentes. “A aura está presente no sentido criador
do artista, não no objeto em si. Ela não é apenas o domínio da técnica, mas a expressão de uma singularidade. A obra precisa se sustentar como objeto, não parar só no discurso ”, ressalta.

A artista plástica Fátima Santiago destaca a aproximação que a arte deve estabelecer com o público. “O artista trabalha com a expressão de um sentimento. Quando sua arte chega as pessoas, desperta muitas
vezes uma curiosidade em quem não tinha acesso àquele trabalho. Ela faz essa pessoa participar de uma experiência única em sua vida, cercada de riqueza e beleza”, analisa.

Desta forma, é necessário que haja a democratização e a popularização da arte, para que, consequentemente, todos possam fruir de sua singularidade.


  • criado por  adrianagabriel2007 criado por adrianagabriel2007
  • Postado em 18:34:52
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