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Essa entrevista faz parte da matéria sobre Imprensa na Corda Bamba
O Ponto entrevistou Francisco Fonseca, professor de Ciências Políticas na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo autor do livro ´´O Consenso Forjado: a grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil´´ (Ed. Hucitec, São Paulo,205), um exame da grande imprensa no cenário político brasileiro entre os aos de 1985 e 1992.
O Ponto: Seu livro conclui, por uma análise minuciosa dos quatro grandes jornais brasileiros, que a imprensa defende uma agenda ultraliberal. Essa defesa foi feita de forma velada ou foi fácil chega e essa conclusão?
Francisco Fonseca: De modo geral a defesa da agenda ultraliberal deu-se de forma sofisticada, subliminar. Houve uma série de estratégicas e mecanismos, tais como fotos, charges, coberturas extremamente enviesadas... mas tudo isso entremeado com artigos, colunistas e pequenas matérias contrárias a esta Agenda, mas colocadas em segundo plano e que apareceram de forma incomparavelmente menor. Serviram apenas para legitimar o suposto pluralismo da imprensa.
O Ponto: Qual seria o interesses dos jornais em cristalizar essa agenda?
FF: Os jornais defendem os interesses do Capital Global - a articulação entre os capitais nacionais e externos - e as classes médias. Esta Agenda era de interesse desses segmentos, embora, no caso do Capital nacional, houvesse problemas relacionados á desnacionalização. Isso, apesar de problemático, não desfez o papel da imprensa como ´´intelectual orgânico´´ do capital. Seu interesse, além do mais, também foi empresarial, dado que boaparte das empresas de comunicação participou de processos de privatização, sobretudo na área da informação. Por fim, compararam o ideal ultraliberal de forma cabal, tendo em vista entendimento que um novo Estado em termos de investimentos privados surgiria desse processo.
O Ponto: Existe algum novo consenso sendo forjado hoje, quer na economia, quer em outras áreas?
FF: Há o consenso de que na macroeconomia aplicada ao Brasil é o único caminho possível, assim como co consenso de que a ordem internacional é esta e que devemos respeitá-la dessa forma.
O Ponto: Que a mídia é parcial, parece estar claro hoje. Mas como separar o joio do trigo?
FF: A questão é saber se: a) há responsabilidade na cobertura da mídia (afinal, liberdade sem responsabilidade se torna tirania); b) as diversas vozes e interesses da sociedade são ouvidos. Democracia implica pluralidade. Assim, se o MST, por exemplo, é coberto pela mídia com um´bando de loucos e subversivos, isso significa a criminalização dos movimentos sociais, o que contraria completamente a democracia. Outro exemplo: vi, no livro, que em dez anos de cobertura (que acompanhei), nenhum grevista jamais foi aceito como legítima. Isso é um crime! A luta entre capital e trabalho é vetada pela imprensa. É claramente possível melhorar as coberturas, punir pela lei, que precisa ser criada – as irresponsabilidades da imprensa e criar mecanismos de controle social. Nada disso, é ou pode ser censura, e sim democracia... pra valer.
O Ponto: O alcance da mídia impressa é relativamente baixo em relação á TV. Qual real implicação da defesa dessa agenda para a sociedade brasileira, principalmente para aqueles que lêem jornais?
FF: O fato de menos dez por cento dos brasileiros lerem jornais e revistas não é um problema, por incrível que pareça, pois a mídia impressa pauta as outras formas de mídia, sobretudo o rádio e a tv. Os leitores de jornais, por outro lado, também são retransmissores privilegiados que, por seu turno, formam a opinião dos mais pobre.
O Ponto: Você conclui nas suas pesquisas que os princípios adotados pela Folha de São Paul, por exemplo, na cobertura dos jornais? Do manual da Folha: o jornal deve fornecer informação correta, interpretação competente e pluralidade de opiniões sobre os fatos´. E quando ao fato de a folha ter noticiário apenas uma greve em 10 anos?
FF: Na verdade, os jornais – a Folha incluída noticiaram todas as greves, mas para dizer que eram´políticas, subversivas, desestabilizadoras etc. No que os manuais pregam e o que é realidade há uma enorme distancia. No período de análise do livro posso afirmar que não houve pluralidade, sobretudo após a moratória de 1987 e sim ´´pensamento único´´.
O Ponto: Você acredita que a imprensa brasileira tem piorado sua cobertura nos anos posteriores á sua pesquisa?
FF: Durante o governo de FHC a cobertura foi extremamente pró – governo. Apesar disso, há movimentos da sociedade pró –democratização da mídia e isso de alguma forma impacta a grande imprensa. Não dá para dizer que melhorou, como um todo, pois trata-se de um complexo movimento, e que depende do tema, da correlação de forças, dos próprios interesses empresariais da mídia (por exemplo, dependência de empréstimos do BNDES), entre outros aspectos.
O Ponto: Em ano de eleições presidenciais, como você avalia a cobertura dos jornais sobre as campanhas?
FF: Os jornais estavam tranqüilos, pois nenhum dos principais candidatos oferecia agendas alternativas. Embora alguns tenham apoiado abertamente o PSDB, o fato é que, no essencial, não temiam ninguém.
O Ponto: Para o leitor em geral, qual é a sua recomendação para não ficar preso a pontos de vistas forjados? Existe uma forma de se informar sem ser induzido a acreditar em algo?
FF: Não é fácil ao leitor comum não ser capturado pela grande mídia. Mas ele pode e deve se informar por meio de órgãos de comunicação variados. Embora apenas 13%dos brasileiros acessam a Internet, as comunidades podem se organizar para ampliara esse acesso que é importante. Além do mais, participar de grupos e associações é fundamental para socializar a informação política. Por fim, devemos continuar lutando para ampliar, diversificar e democratizar p acesso á informação (rádios e tvs comunitárias, meios estatais de comunicação, desde que independentes, etc).
O Ponto: Por fim, o consenso da agenda ultraliberal ainda persiste na imprensa?
FF: Creio que, na essência este consenso ainda persiste. Veja o caso dos lucros dos bancos, da posição subalterna do Brasil perante a ordem internacional. Tudo isso explicita este consenso, embora haja rachaduras nele.